Eu me considero um lutador de tai chi, apesar dos praticantes afirmarem que ele não é efetivamente uma arte marcial. Seus movimentos lentos e filosofia, apesar de originários de movimentos de luta do kung fu, tem outras prioridades como a busca de equilíbrio, saúde, trabalho enérgico, meditação em movimento e prática da filosofia taoísta.
Quando pratico tai chi minha luta é contra a minha ansiedade (de aprender logo), minha pressa (acelerando os movimentos), meus pensamentos desordenados (oposto da mente vazia sem pensamentos), minha descoordenação (contra a suavidade e o fluxo contínuo do tai chi chuan), e até mesmo minha falta de jeito para esta arte (compensada pela minha paixão).
Aliás, em termos de luta canso de ver gente perder esta batalha (pessoas que chegam animadas e desistem após poucas aulas). Eu e outros colegas dividimos por anos a fio esta paixão difícil de explicar, e tudo que aprendemos parece ainda mais difícil de verbalizar.
Quando digo luta, falo não da forma física, mas de um duelo muito mais complexo e persistente. Um combate que vai além do cansaço e da forma, guerra silenciosa que partilho com outros companheiros.
Passo a passo, bloqueio a bloqueio, dificuldade a dificuldade, vou escrevendo esta nova linguagem no meu corpo, que range, endurece, reage mas acaba por ceder a uma postura mais correta e a movimentos mais suaves (algumas vitórias deste tipo levam horas, outras dias, meses e até anos).
A imperfeição permanece e é a companheira de quem pratica há anos. Só quando olhamos para ela como uma outra forma de mestre, silenciosa e permanente, e aprendemos a conviver com ela, seguimos mais leves.
Nesta luta vale também o mestre, e admiro o meu, Bruno Kelson, pela paciência, sinceridade e por toda a base filosófica com que ele enriquece nossa trajetória e estimula nosso vôo individual.
Assim, dentro de minha mente e alma (que os orientais não separam como nós) e contra todos os obstáculos, respiro fundo e vou superando os obstáculos.
Lutando tai chi, eu encontrei um caminho, e no meio disto, este caminho também me encontrou.
ass: Roberto Tostes
(praticante de tai chi chuan na Sociedade Taoísta do Brasil – Rio de Janeiro – com o mestre Bruno Kelson desde 2000)
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