Solta o verbo e deixa as palavras falarem. Talvez você não entenda tudo, mas provavelmente haverá um sentido. No meio das frases, atrás dos parágrafos, em cada texto haverá uma intenção, para aos outros e para você mesmo.
Olhando lá dentro do seu umbigo, você poderá se encontrar mas também toda a parte do mundo que cabe aos outros. Todas as emoções , boas e ruins, descobertas, tristezas, espanto, alegria. E do universo que assiste a tudo você perceberá que às vezes ele se confunde, como lua brilhante que te sobrevoa e observa sem entender direito o que você pensa, ou como vento que te abraça tentando prever suas reações e medos, ou a noite que te cobre e te escurece aos poucos para decifrar teus sonhos mais profundos.
No final das contas, homem e natureza podem se misturar nas tempestades, para saber que um faz parte do outro indefinidamente, existindo dentro ou fora, perto ou longe. Assim como os outros de quem fugimos ou perseguimos, que de alguma forma também moram no nosso umbigo.
quinta-feira, dezembro 30, 2010
domingo, agosto 08, 2010
Loucura de mim mesmo
Me acabo repetindo a mim mesmo. Me exponho escrevendo um texto que já conheço. Nesse desespero acho que não me acho, me repito de propósito em cada trecho. Me quebro em pedaços do mesmo brinquedo, querendo ser outro inteiro. Vibra assim a palavra dentro de mim, até que eu fale, até que eu esqueça, até que eu passe. Meu limite é voltar ao final pelo começo, repetindo o que eu sabia desde o começo. Morro de vontade de falar o que não escrevo. De qualquer forma me jogo, e caio, um suicídio lento dentro de mim mesmo. Ouço a voz e a queda do texto murmurando as palavras que já não me cabem. Me repito, me conheço, me estranho, quanto mais me esvazio, mais enlouqueço.
terça-feira, agosto 03, 2010
TROCAR DE CASCA
De vez quando é preciso trocar de pele. O mais complicada aí talvez seja quebrar a própria casca. Arrancar, soltar a crosta das coisas antigas. Abrir espaço para algo novo crescer, aarrancar coisas arraigadas, duvidar de si mesmo. O que vale aí não é a dor, ou a solidão, mas a decisão. É preciso entender o vazio, ser outro, seguir outro caminho, descobrir-se outra pessoa, deixar as novas sensações e ideais virem.
Trocar de vida. Recomeçar pela pele. A percepção do mundo no ar, num vento, numa respiração. Ficar sem proteção para conseguir enxergar. Um olhar que precisa ficar embaçado para enxergar de novo. Sem pele, sem proteção. Entre o medo e a coragem, cada um de um lado da ponte. Reiniciar, sendo o mesmo, sendo outro.
domingo, julho 25, 2010
O ZEN E O CAFÉ
O pequeno ritual. Não deixar a água ferver. Passar o líquido sobre o pó, lentamente. O desenho úmido e as formas inquietas da água negra. O cheiro que se espalha longe. A passagem do visual ao olfato e, por fim, ao paladar. A xícara vindo à boca prenuncia o gosto.
O ponto certo é único. Sabor, temperatura e cheiro se fundem na boca, enquanto olhamos com carinho o líquido negro que brilha sobe a luz.
Mas tudo pode falhar. Para a perfeição algo sempre pode estar fora de eixo. Faz parte da busca da forma e do gosto pleno, sob medida.
Quente demais, frio demais, forte demais, muito pó, água em excesso.
O primeiro café abre o dia com sua onda negra de sensações.
Café na boca, olho na cor, cheiro sob a narina. Instante único. Tudo ou nada. Era isso tudo ou não? Pouco, muito ou nada?
A busca da perfeição continua sempre no outro dia.
Como as coisas intensas da vida, o gosto do café fica.
sexta-feira, julho 23, 2010
Janela do Ser
Preste atenção. Está tudo misturado, medo e êxtase,. A altura. Você chegou no limite. Este buraco à sua frente é sua janela para o mundo. Sem querer você chegou na sua própria beira. Ainda sendo o que é, enquanto não enlouquece ou esquece. Consegue olhar a si e ver os outros. Cuidado, qualquer deslize você cai dentro de novo de sua casca, ou pior, sai pra fora e volta a ser guiado pelos outros ou pelos acontecimentos.
Aproveite este limite para medir o espaço e compreender que você é um e os outros são a mesma coisa. As janelas são assim, nos ensinam as possibilidades. Dizem que elas eram espelhos quando crianças. Você agora tem vontade de mergulhar longe, impulso de se jogar e se deixar para levar. Isso é parte desta zona limítrofe, da possibilidade de você se livrar de si mesmo.
Tome cuidado, apenas fique quieto, Você não sabe, mas levou anos para chegar aqui. Se ignorando, se machucando, quebrando e colando, sobrevivendo,até se esquecendo do que estava fazendo, correndo a maratona dentro de si. Nestes poucos segundos você pode entender que o labirinto tem um caminho dentro de si mesmo.
Você tem medo. Não importa. Mesmo que esqueça, lá no fundo você vai saber que esteve aqui. Você não precisa sair mas pelo menos precisa entender o poço, a janela, o horizonte.. Aproveite e a vista, por algum tempo você é turista de si e dos ouros, do que é ser neste mundo.
quarta-feira, julho 21, 2010
Algo que meu pai me ensinou
Vai dar certo. Essa frase sempre me lembrará meu pai por sua positividade, sua crença no outro e na boa intenção do universo.
Em vários momentos acompanhei esta prática de perto, criança, adolescente ou adulto. Até de forma crítica em algumas coisas. Meu pai olhava para o mundo de uma forma particular e nem sempre eu entendia isso. Mas vi ele várias vezes enfrentar momentos difíceis, como no acidente em que perdemos minha irmã e minha mãe ficou muito tempo, anos, se recuperando. E ele lá, firme, confiante na recuperação dela. Deu tudo certo, claro, com sua confiança sempre pura e branca como os lírios do campo.
Em outras vezes, cheguei a sentir uma ponta de ciúmes, ao ver essa confiança depositada em outras pessoas. Parentes, amigos, gente desconhecida. Não sei de onde ele trouxe isso, se por ser de Minas, por ser do interior, por ser médico, por cuidar de crianças, gostar de passarinhos, falar fácil com gente simples, do porteiro ao torcedor desconhecido ao lado, no Maracanã.
Levei muitos anos para entender isso, e perceber que acabei assimilando este jeito ingênuo, franco, sincero. Espero praticar sempre isso que aprendi com ele. Mesmo com chuva, tempo ruim, vamos pra praia buscar o sol. Valeu, pai.
domingo, julho 18, 2010
Porque Eu Luto Taichi
Eu me considero um lutador de tai chi, apesar dos praticantes afirmarem que ele não é efetivamente uma arte marcial. Seus movimentos lentos e filosofia, apesar de originários de movimentos de luta do kung fu, tem outras prioridades como a busca de equilíbrio, saúde, trabalho enérgico, meditação em movimento e prática da filosofia taoísta.
Quando pratico tai chi minha luta é contra a minha ansiedade (de aprender logo), minha pressa (acelerando os movimentos), meus pensamentos desordenados (oposto da mente vazia sem pensamentos), minha descoordenação (contra a suavidade e o fluxo contínuo do tai chi chuan), e até mesmo minha falta de jeito para esta arte (compensada pela minha paixão).
Aliás, em termos de luta canso de ver gente perder esta batalha (pessoas que chegam animadas e desistem após poucas aulas). Eu e outros colegas dividimos por anos a fio esta paixão difícil de explicar, e tudo que aprendemos parece ainda mais difícil de verbalizar.
Quando digo luta, falo não da forma física, mas de um duelo muito mais complexo e persistente. Um combate que vai além do cansaço e da forma, guerra silenciosa que partilho com outros companheiros.
Passo a passo, bloqueio a bloqueio, dificuldade a dificuldade, vou escrevendo esta nova linguagem no meu corpo, que range, endurece, reage mas acaba por ceder a uma postura mais correta e a movimentos mais suaves (algumas vitórias deste tipo levam horas, outras dias, meses e até anos).
A imperfeição permanece e é a companheira de quem pratica há anos. Só quando olhamos para ela como uma outra forma de mestre, silenciosa e permanente, e aprendemos a conviver com ela, seguimos mais leves.
Nesta luta vale também o mestre, e admiro o meu, Bruno Kelson, pela paciência, sinceridade e por toda a base filosófica com que ele enriquece nossa trajetória e estimula nosso vôo individual.
Assim, dentro de minha mente e alma (que os orientais não separam como nós) e contra todos os obstáculos, respiro fundo e vou superando os obstáculos.
Lutando tai chi, eu encontrei um caminho, e no meio disto, este caminho também me encontrou.
ass: Roberto Tostes
(praticante de tai chi chuan na Sociedade Taoísta do Brasil – Rio de Janeiro – com o mestre Bruno Kelson desde 2000)
Quando pratico tai chi minha luta é contra a minha ansiedade (de aprender logo), minha pressa (acelerando os movimentos), meus pensamentos desordenados (oposto da mente vazia sem pensamentos), minha descoordenação (contra a suavidade e o fluxo contínuo do tai chi chuan), e até mesmo minha falta de jeito para esta arte (compensada pela minha paixão).
Aliás, em termos de luta canso de ver gente perder esta batalha (pessoas que chegam animadas e desistem após poucas aulas). Eu e outros colegas dividimos por anos a fio esta paixão difícil de explicar, e tudo que aprendemos parece ainda mais difícil de verbalizar.
Quando digo luta, falo não da forma física, mas de um duelo muito mais complexo e persistente. Um combate que vai além do cansaço e da forma, guerra silenciosa que partilho com outros companheiros.
Passo a passo, bloqueio a bloqueio, dificuldade a dificuldade, vou escrevendo esta nova linguagem no meu corpo, que range, endurece, reage mas acaba por ceder a uma postura mais correta e a movimentos mais suaves (algumas vitórias deste tipo levam horas, outras dias, meses e até anos).
A imperfeição permanece e é a companheira de quem pratica há anos. Só quando olhamos para ela como uma outra forma de mestre, silenciosa e permanente, e aprendemos a conviver com ela, seguimos mais leves.
Nesta luta vale também o mestre, e admiro o meu, Bruno Kelson, pela paciência, sinceridade e por toda a base filosófica com que ele enriquece nossa trajetória e estimula nosso vôo individual.
Assim, dentro de minha mente e alma (que os orientais não separam como nós) e contra todos os obstáculos, respiro fundo e vou superando os obstáculos.
Lutando tai chi, eu encontrei um caminho, e no meio disto, este caminho também me encontrou.
ass: Roberto Tostes
(praticante de tai chi chuan na Sociedade Taoísta do Brasil – Rio de Janeiro – com o mestre Bruno Kelson desde 2000)
sábado, julho 17, 2010
AUSENTE PRESENÇA
O que eu quero é falar sobre o que não necessita da presença, talvez nem até mesmo de palavras.
É um sentimento transparente do qual pouco se fala porque não necessita ser dito. Ele simplesmente existe, como o amor, a amizade, a saudade.
É uma outra forma de presença, de estar junto. Quero falar isso dos meus pais, agora. Vocês, sem estar aqui, tornam-se presentes. Não apenas neste instante ou nesse lugar. Vocês estão comigo neste instante onde quer que eu esteja, fazendo sei lá o que.
É uma presença que a gente conquista sem perceber, cresce no silêncio, durante anos ou por poucos segundos, quando você lembra de momentos em que estava com essa ou essas pessoas ali do lado, falando alguma coisa, ou nada.
Das poucas conquistas que eu consegui, nesse tempo de vida, ela é a das mais belas, porque parece indestrutível, eterna, simples.
Posso estar distraído na rua e de repente sentir uma sensação estranha, de estar sendo seguido ou coisa parecida. Mas se eu prestar atenção posso perceber a presença de vocês me acompanhando, lado a lado.
Sem conselhos, brigas, repreensões ou qualquer coisa específica.
Não é uma coisa indefinida, como um rápido olhar, uma despedida.
É isso. Eu vou embora e vocês continuam comigo, de alguma forma.
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