quarta-feira, dezembro 20, 2006

MULTIDAO

Multidão sou eu. Eles estão aí dentro de mim e fica difícil negá-los. Eu sou esses todos, e mal sei disso. Demoro para entender tantos pensamentos de seres estranhos na minha cabeça. Quase perco o controle, vertigem de mim mesmo. As vozes e vontades se espalham por todo o lado. Perco a noção de quem sou verdadeiramente. Neste labirinto de caminhos e sensações procuro o ser que aparentemente vinha vencendo esta batalha. Nestas horas tudo pode se confundir. A mente pensa demais, liquidifica a realidade e você fica tonto. Não agir pode ser um equivoco. Ignorar pode ser falta de consideração. Insistir pode ser o fim, desistir pode ser retroceder. Perdido na multidão você procura ouvir as batidas de seu coração, procurando entre tantas sombras. Sou muitos e tenho medo deles. São loucos, são egoístas, são santos, são ignorantes. A multidão é você, gritam eles em coro. Eles parecem rir e zombar da situação.   Nem sei como, fico batendo pelas paredes e acabo ficando completamente extenuado, junto coma dor de cabeça eles vão sumindo aos poucos. Eu sou este zoológico dividido em pedaços, andando por ai com a cara espantada de quem tenta parecer normal. Não joguem pipoca para os animais.

domingo, dezembro 17, 2006

SABORES


Quando você come, mastiga e sua língua alardeia o primeiro gosto, algo dispara. Em um instante vem à mente e à boca todos os sentidos - daquela mesma coisa - e de todas as vezes que você provou algo semelhante, numa escala de sensações e significado crescente. O sabor se refaz, multiplica-se e se amplia neste intenso segundo.
Como no alimento, é possível encontrar nas pessoas, texturas, gostos e cheiros, sensações peculiares. Você devora as pessoas e elas também se alimentam de você de alguma forma. Beijos, lambidas, devorações, gestos canibais, antropófagos. O que se devora, se assimila.

O sabor do que voce vive e come, fica na memória para sempre, como a vontade nunca totalmente saciada. Os sabores e desejos estão além do que conseguimos como alimento.

sábado, dezembro 09, 2006

DESCONHECIDOS

Tenho fome de pessoas que não conheço, suas histórias, seus segredos. Mesmo sem conhecê-las, tento adivinhar o que pensam, pelo que lutam, por quem sofrem. Me alimento destes fragmentos de existência, destas auras, detalhes humanos, primeiras impressões. Procuro as dgitais de cada um nos gestos; sons, repiração e olhar dizem muito de alguém. Próximo ou distante, presto atenção nas palavras. São tantos seres, tão diversos, em tantos lugares e momentos, que um turbilhão de vida se forma, um redemoinho que embriaga os sentidos. Num instante você se apaixona ou se deixa fascinar, jogado nessa imensa vitrine humana. Da mesma forma, se sufoca ou foge, sem certeza, sem saber o que fazer. É um rastro de vida que se esvai e recomeça, gente que não pára de passar pela sua frente. Você ama a multidão e se perde nessa solidão que não acaba nunca.