sexta-feira, agosto 18, 2006

FAÍSCA


Estas palavras passaram anos explosivamente esperando sua própria faísca. A pólvora aguarda o fogo. Tudo começa daí, da intenção esperada, do que pode e deve acontecer em algum momento. A menor faísca trata disso, da única saída, da explosão da vida em artefato, pensamento, som ou gesto. Independente do fogo tudo começa de alguma forma. A faísca existe para incendiar e se espalhar no raio. Sua rapidez é sua própria pista. O inevitável piscar antes de um diferente olhar. Ela arrisca a própria vida, fração de luz que a tudo ilumina num instante. A faísca vibra e se apaga pra dizer que nada termina, tudo continua de outra forma.

quinta-feira, agosto 17, 2006

SONHOS DE UMA CIDADE


Ela aparece adormecida dentro do meu sonho. É uma mulher, nem nova nem velha, madura o suficiente para carregar nas mãos o sofrimento e a esperança. Eu mal a vejo mas pressinto nela algo de diferente, ela é toda minha cidade nesta forma abstrata. Sem que eu espere, do nada, ela vem e me abraça por trás. Eu sinto sua respiração ansiosa e forte. De alguma forma ela me pede ajuda, como se adivinhasse o sentimento que eu tenho por ela, inclusive meu desconhecimento.  Ela apenas me olha, mas é como se segurasse nos meus braços com toda a força e ardor. Ela tem algum tipo de força, algo que me faz tremer por dentro. Ela mal fala comigo, sua linguagem é diferente mas entendo perfeitamente o que ela quer dizer. Tantas vezes estivemos juntos de alguma forma durante estes anos todos e só agora tomo consciência do significado disto, de sua companhia, sua presença. Ela é minha cidade, meu útero, tunél de luzes geométircas,  avenida sem fim, minha praça, meu universo em volta dos meus olhos, parte e todo de tudo que me cerca. Ela se expressa assim, dentro de um sonho, pede que eu escreva algo sobre ela, algo que possa afetar a todos de alguma forma, passar uma mensagem, um sinal qualquer. Ela quer a minha marca, a minha escrita traçada pelas ruas, como um grafitti, as entrelinhas dos meus passos em todas suas esquinas, ruas e caminhos que traçei na sua malha urbana. Como se ela tivesse me seguido durante este tempo todo e quisesse algo qualquer coisa, mas a parte que signifique, que expresse algo que precisa ser dito neste momento. Como uma modelo que espera seu retrato, mesmo sabendo que será apenas um, apenas uma de tantas expressões, mesmo sendo incompleto e por isso mesmo sendo perfeito em algum aspecto.. Mesmo nas ausências,  ela sabe da parte de mim que sempre ficou por aqui, continuou aqui. Mesmo sem nada dizer, sempre tive palavras sobre ela na minha boca. Eu vivi sobre ela. E agora ela parece cansada e quer viver sobre mim. Minha cidade, agora quer algo de mim de volta.  Eu a senti claramente a meu lado. Como ela me atropelasse lentamente de alguma forma, uma sombra a me devorar. Tão longe, tão fora, e tão próxima de mim. Eu estive dentro desta névoa e meus passos aqui nunca mais serão os mesmos. Agora ela é parte de mim, mesmo.

quinta-feira, agosto 03, 2006

DESFRAGMENTANDO

Quebro a cabeça por dentro, tento encontrar as peças. Me fragmento para tentar separar o tempo da memória, pego pedaços para montar desenhos, recortar palavras.  Tudo é chave, e mesmo quebrada a parte tem sua razão de ser.  Alguém precisa contar a história, sem nexo ou sem fim. Ajeito um pedaço por fora até que ele se encaixe por dentro. Cola, barbante, saudade, tudo serve para fixar um instante.

quarta-feira, agosto 02, 2006

AUTODESCONTROLE

Você se manda fazer várias coisas mas, dependendo de si, não necessariamente obedece. Pode ser por qualquer motivo que você desconhece, por que o outro dentro de si não responde ou te ignora simplesmente. Pode ser até mais de um dentro de você entrando em conflito. Pode ser uma confusão danda, um tentando pular por cima do outro, e você não sabe nem quem mais é quem, ou onde você está. Mas você acaba voltando para algo de si que se manifesta. O corpo é só um mas a vida são muitas. Você que se vire com estes outros de si. E que sejam felizes para a mente.